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| Editorial Publicado em 05/02/2010 |
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| MEA CULPA |
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OLAVO DE CARVALHO Escritor e filósofo
Recebi outro dia mais um rosário de queixas contra a minha pessoa e
os meus escritos, onde o remetente acreditara encontrar provas
inequívocas da minha maldade, prepotência e demoníaca soberba, além de
uma infinidade de erros lógicos, factuais, morais e gramaticais que, se
comprovados, bastariam para fazer de mim um forte candidato a ministro
da Cultura do governo Dilma Roussef.
Como em geral acontece nesse gênero de mensagens, porém, os erros que o
sujeito me imputava eram apenas aparências de erro nascidas de uma
leitura mal feita, se não de uma percepção estruturalmente deformada, o
efeito mais geral e permanente daquilo que no Brasil se chama, por
motivos insondáveis, "educação". Só para dar um exemplo, o cidadão se
dera o trabalho de revirar o Google para saber quantas vezes eu
repetira tal ou qual termo técnico, expressão latina ou alusão
literária e daí concluir, por um salto lógico imensurável, que eu não
tinha o direito de acusar os esquerdistas de escreverem todos da mesma
maneira, com cacoetes de linguagem que os identificam à distância. Em
suma, ele confundia aquele conjunto de cacoetes personalizados, que
assinala a presença de um estilo, com a perfeita falta de estilo que se
observa na repetição coletiva de cacoetes uniformes. Felizmente, o
signatário estava tão brabo comigo que prometia não ler nenhuma
resposta que eu lhe enviasse, o que me eximia de tentar destrinchar uma
por uma - como se isto fosse possível! as suas prodigiosas confusões
mentais. Gratíssimo por essa gentileza, contentei-me em enviar-lhe o
breve conselho de que parasse de se masturbar diante da minha imagem, e
dei o caso por encerrado.
No entanto, depois, refletindo mais longamente, descobri por baixo
dos erros aparentes denunciados pela criatura alguns vícios reais da
minha escrita, que dão margem a equívocos sem fim quando caem ante os
olhos de leitores ineptos ou maliciosos, sem contar os ineptos e
maliciosos.
O mais letal desses vícios é cortejar os leitores em geral, e os
mais burros em especial, mediante uma falsa impressão de simplicidade e
clareza, buscada com as mais lindas intenções didáticas mas que, no fim
das contas, induz o primeiro recém-chegado a crer que tudo compreendeu
à primeira vista - senão a imaginar que apreendeu o conjunto inteiro do
meu pensamento pela leitura de algumas amostras casuais , e a reagir
de pronto mediante alguma opinião fácil, já imunizada no berço contra
aquela exigente confrontação de hipóteses que é a única via para se
chegar à verdade, tanto na interpretação dos fatos quanto das palavras.
A clareza, dizia Ortega y Gasset, é a cortesia do filósofo. Iludido
por essa promessa barata de fazer de mim um tipinho simpático aos olhos
do mundo, acabei por esquecer que "cortesia" vem da mesma raiz de
"cortejar" e "cortesão", e que o conselho do grande prosador espanhol
ameaçava jogar-me, das alturas espirituais em que eu acreditava
mover-me, ao fundo do mais abjeto e imperdoável puxa-saquismo
literário: a prática de um estilo tão sedutoramente claro e límpido que
faz o leitor imbecil sentir-se inteligente ao ponto de querer puxar
discussão comigo antes de ter tido sequer o vago e fugaz impulso de
discutir consigo mesmo. Esse efeito é inevitável desde o momento em que
se adote aquele estilo, pois a coisa mais impossível para o imbecil é
discutir consigo mesmo, em voz baixa, sem o apoio de um interlocutor de
carne e osso: defrontado com alguma afirmação que lhe soe estranha ou
desconfortável, esse tipo de leitor não resistirá à comichão de impor à
força as funções de interlocutor real, e não simplesmente mental, ao
infeliz autor daquilo que acaba de ler. É assim que acabo me
transformando, para toda uma categoria de leitores - mais numerosa no
Brasil do que em qualquer outra parte do mundo , naquilo que em
psicoterapia se chama ego auxiliar, uma boa alma encarregada
de completar no mundo físico, para maior clareza, os pensamentos que o
paciente, por si, não tem energia bastante para pensar por inteiro nem
coragem bastante para admitir que os pensou. Contando comigo para o
desempenho desse trabalhoso ofício no seu teatrinho mental, o cidadão
me envia então os mais toscos e informes pensamentos semipensados,
forçando-me a acabar de pensá-los e a compreendê-lo, portanto, melhor
do que ele próprio se compreendeu.
Ao contrário, porém, do que acontece nas psicoterapias propriamente
ditas, onde o sujeito sabe que foi lá para que o ajudem a pensar em voz
alta, os remetentes dessas deformidades não têm a menor idéia de que
estão me pedindo socorro terapêutico. Em vez disso, enviam-me aqueles
rabiscos de pensamentos possíveis como se não fossem apenas materiais
brutos para uma possível elaboração interior e sim idéias já maduras e
firmes, claras e bem definidas, prontas a ser discutidas, provadas ou
refutadas. Pior ainda, quanto mais intenso o seu desconforto interior,
quanto mais agitada a sua confusão de imagens e sensações, quanto mais
aguda a sua impossibilidade de pensar, tanto mais o desgraçado
interpreta esses sentimentos como se fossem expressões formais de uma
discordância intelectual, e tanto mais ousado e desafiador é o tom em
que me escreve. O sentimento que essas mensagens me infundem é de uma
comicidade triste, pirandelliana, onde o deslocamento radical entre as
palavras ditas e a situação psicológica de onde emergem, ou, dito de
outro modo, entre consciência e realidade, raia a loucura pura e
simples sem chegar a ser loucura em sentido clínico, detendo-se naquele
perigoso meio-termo que é a loucura socialmente legitimada como
normalidade.
A culpa, reconheço, é minha. Se eu escrevesse de maneira complicada
e obscura, se eu pelo menos me abstivesse de usar certos truques
pedagógicos para despertar a intuição no leitor, nem o mais presunçoso
dos imbecis julgaria me compreender: todos se recolheriam àquele
silêncio humilde que, a longo prazo, pode ser propício a um esforço de
meditação. Mas também não posso me acusar além da medida justa. Se
infundo nos imbecis uma confusão de sentimentos, provocando situações
que acabam por ser incômodas para mim mesmo, o fato é que não fui eu
quem povoou dessas criaturas esta parte do mundo, nem lhes ordenei que
crescessem e se multiplicassem. Isto é mérito exclusivo do establishment educacional, ou dele em cumplicidade com a mídia, os políticos e os "formadores de opinião" em geral.
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