03/07/2009
“LER POR PRAZER”?: A CRISE EDUCACIONAL BRASILEIRA

 

Nunca fui muito receptivo à promessa maliciosa (feita sobretudo às crianças) de que “a leitura é uma coisa prazerosa” – variante exemplar da sentença genérica: “Só se deve fazer aquilo que nos dá prazer”.

Seguindo este mesmo critério “epicurista”, não demorei a descobrir (ainda na adolescência) que há coisas bem mais prazerosas e agradáveis do que a leitura (cada um faça aqui a própria lista). Nem só de prazer se vive, é claro – e nem só por prazer se lê.

Desde esta constatação, afinal tão simples, continuei a ler – e, como era inevitável, dedicando-me a leituras cada vez mais complexas e eventualmente árduas. Por decisão própria, por imposição profissional, etc. – enfim: continuei a ler pelos mais diversos motivos (e aqui também cada um há de ter sua lista particular de razões).

Li muito, continuo lendo sempre (ora mais, ora menos), porque gosto, mas também porque sei que é importante e necessário. E cada vez mais agradeço por não ter sucumbido à armadilha infanto-juvenil de… “ler por prazer”.

Mas isso não quer dizer que, em algum momento, a leitura tenha chegado a ser, para mim, um martírio ou castigo. Mesmo porque não existe “A” leitura: existem formas diferentes de ler – e a leitura como puro deleite é apenas UMA delas.

Infelizmente, o Brasil parece lembrar, mais e mais, o pesadelo imaginado pelo escritor inglês Aldous Huxley no célebre “Admirável Mundo Novo”: desde o berçário, as pessoas são criadas para voltarem as costas ao conhecimento e à leitura e caminharem, cada vez mais vorazes, na direção do prazer.

O resultado não poderia ser mais desastroso. E aqui falam as estatísticas: no Brasil, segundo dados consolidados entre 1995 e 2005, mais da metade dos estudantes que “concluíram” a quarta série do Ensino Fundamental mal consegue ler! Pior ainda: 95% do TOTAL de alunos que “concluíram” esta quarta série têm um desempenho abaixo do MÍNIMO esperado.

Mais do que apenas preocupante, tudo isso é absolutamente DESASTROSO, se levarmos em conta que a Leitura é uma atividade indispensável para se obter conhecimento e valores culturais e morais – coisas bem mais relevantes do que, meramente, “ler por prazer”.

A situação alarmante da leitura e da educação no Brasil é o tema das pesquisas e artigos do professor Luiz Carlos Faria da Silva, da Universidade Estadual de Maringá, PR. Suas críticas e reflexões (de onde as cifras acima foram tiradas) constituem uma das novidades que o FAROL DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA está preparando para lançar em seu novo site, que em breve – MUITO EM BREVE – estará no ar.

Fique atento, caro leitor: estamos planejando um site inteiramente novo, voltado sobretudo para Educação e Cultura. Afinal, nunca é demais repetir aquilo que (agradeço a Deus!) pude descobrir desde cedo: Educação e Cultura não são meras “atividades prazerosas”, mas ferramentas-chave para o crescimento. E o crescimento, no nosso caso, pressupõe uma discussão efetivamente democrática sobre a crise brasileira – e, acima de tudo, sobre as chances de revertê-la.


ANTONIO FERNANDO BORGES
Escritor
Diretor Cultural do Farol da Democracia Representativa