Jarbas Passarinho
Foi ministro de Estado, governador e senador
Consultor do FDR
Lei italiana autoriza seus magistrados a investigar assassinatos de cidadãos italianos cometidos no exterior. Enfatize-se que a lei trata de assassinatos.
O vulto incomum da repercussão na mídia brasileira dos mandados de prisão expedidos pelo magistrado contra 140 latino-americanos ganhou força com o fato de que 13 brasileiros estão entre os suspeitos de responsabilidade de assassínios. Seria a Operação Condor, uma espécie de Interpol política, de posse de um rol de foragidos, que os prendia e extraditava para os países onde deviam ser julgados.
Ministro dos governos entre 1964 e 1984, coronel do Exército, só administrei ministérios civis, e não exerci nenhuma função militar, inclusive na contra-insurreição que nos salvou da derrota pelos terroristas e guerrilheiros comunistas, na luta armada desencadeada por eles. O desconhecimento das operações militares não me impede de defender camaradas de farda, muitos deles já mortos, de acusações inverossímeis publicadas com destaque, sugerindo a priori suspeita de participação nos assassínios que o juiz italiano pesquisa.
Conhecendo bem o caráter do presidente João Figueiredo, dos generais Walter Pires, meu instrutor na Escola de Estado Maior, e de Octávio Medeiros, meu colega de turma da Escola Militar, estou absolutamente convicto de que tal suspeição é descabida, se não infamante e caluniosa. A farta publicação dela, até com chamada e retratos na primeira página de jornal, atribuo ao delírio acusatório dos militantes da praxis leninista do marxismo, ou a “inocentes úteis” por eles utilizados. Jamais esqueceram a derrota que colheram, ao tentar conquistar o poder pela força das armas.
Dir-se-á que, ignorante do que foi a Operação Condor, também cometo apriorismo. Não, porque trato não de indícios, como o magistrado italiano, mas de homens dignos, cuja vida inteira me foi dado acompanhar. O prestimoso juiz quer investigar responsáveis pela prisão e extradição de dois italo-argentinos que buscavam entrar no Brasil clandestinamente, fugindo da repressão argentina. Coincidentemente, atuavam na facção extremista dos montoneros, que prenderam e mataram o ex-presidente argentino general Aramburu e tantos outros seus patrícios, numa guerra fratricida. Muito bem-equipados e donos até de uma fábrica de material bélico, teriam direito de matar, só porque seriam intocáveis descendentes de italianos?
A propaganda da esquerda apelida o período que custou mortes, também, dos que venceram os agressores, de “anos de chumbo”. Se vencessem, seriam “anos de ouro”, consagrados a Fidel Castro, que os treinou, financiou e há 48 anos oprime os dissidentes. Da Operação Condor só me chegou a informação de que era uma missão de informação, à semelhança da atividade da Interpol. Agora leio, em O Estado de S.Paulo, documentos da CIA relatando treinamento de “equipes de assassinos chilenos, argentinos e uruguaios para agir contra refugiados políticos, do que o Brasil não concordou em participar”.
Deus me deu a graça de viver por muito tempo, o suficiente para ver a falência do fascismo, do nazismo e do comunismo, deixando atrás de cada um deles milhões de mortos. O mundo de todos os velhos — ensina Bobbio — é, de modo mais ou menos intenso, o mundo da memória. E nela me amparo para compreender as grandezas e as misérias dos homens. Daniel Bell (que já citei mais de uma vez) escreveu Fim da ideologia. Ouso discordar da temerária conclusão, porque ele mesmo reconhece que a ideologia acabou mas não acabou a utopia.
Há, porém, a despeito do colapso do comunismo na Europa, os que em nome do marxismo utópico, ressentidos e até odientos (pois o ódio ideológico é o pior de todos), tudo fazem para desqualificar os presidentes do ciclo militar e os militares que venceram a luta armada. Permanecem leninistas e stalinistas. Usam o velho hábito dos debatedores que, à falta de bons argumentos, empenham-se em
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